segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A Pintura em Vasos - Édipo Rei


A história dos vasos

Os vasos gregos são também conhecidos não só pelo equilíbrio de sua forma, mas também pela harmonia entre o desenho, as cores e o espaço utilizado para a ornamentação. Além de servir para rituais religiosos, esses vasos eram usados para armazenar, entre outras coisas, água, vinho, azeite e mantimentos. Por isso, a sua forma correspondia à função a que eram destinados:

- Ânfora – vasilha em forma de coração, com o gargalo largo ornado com duas asas;
- Hidra – tinha três asas, uma vertical para segurar enquanto corria a água e duas para levantar;
- Cratera – tinha boca muito larga, com o corpo em forma de um sino invertido, servia para misturar água com o vinho (os gregos nunca bebiam vinho puro);
- Kantharo – uma espécie de cálice.

Os gregos do século XII a.C. tinham uma vaga lembrança da desdita de seus antepassados, mais tarde relatada com toques de lenda, em poemas épicos como “A Ilíada” e “A Odisseia”, atribuídos a Homero. Não saberiam precisar o nome daqueles povos vindos do norte a partir do século XV a.C.; primeiro aqueus, depois os eólios e jônios, finalmente os dórios que falavam dialetos diferentes e deram o golpe de misericórdia na agonizante civilização creto-micênica.

A população dispersou-se pelas ilhas e montanhas. Com o declínio do comercio e da economia, desapareceu a vida urbana. Ganhando feições rurais, cada agrupamento familiar ou clã tinha seu chefe responsável pelo cultivo da terra, pelo trabalho coletivo e pela divisão de produtos. Mas a invasão dórica que começou do século XII a.C. também atingiu a arte, empobrecendo os artesões e fechando as escolas profissionais.

Os vasos gregos desse período retomavam uma simplicidade e um primitivismo há muito superados em Creta e Micenas. Impera nas cerâmicas aquele estilo geométrico onde a função utilitária de armazenar líquidos e cereais prevalece sobre qualquer intenção artística. É a cerâmica Dipilon, assim chamada por ter sido encontrada principalmente no cemitério do mesmo nome, próximo a Atenas. Nos vasos, ânforas, pequenas caixas e animais de terracota triunfam o geometrismo. Sobre tons alaranjados da cerâmica, desfilam as mais singulares combinações de figuras geométricas em negro: retas, curvas, polígonos, meandros, pontos e espirais são parte de uma profusa decoração.

Sem limites definidos, as figuras claras e rítmicas se ligam e se integram, obedecendo á faixa horizontal onde se inserem. Há uma harmonia simples e bela no jogo dos círculos que se entrelaçam até formarem pequeninos pontos, bem como nas retas paralelas que compõem os frisos da faixa central, representando, muitas vezes, cenas cotidianas.

Os vasos Dipilon reproduzem os cortejos fúnebres: figuras esguias e estilizadas de cavaleiros segurando frágeis arreios. Os cavalos têm múltiplas patas e os pequenos carros são apenas indicados por rodas frontais e por uma plataforma que sustenta o condutor. As árvores e o sol, os animais e os homens são como traços de caligrafia. A natureza, de tão repetida, transforma-se numa imagem esquematizada. E a geometria da decoração, em faixas separa acompanhada a própria forma do vaso, extremamente simples.

Os artistas gregos ainda procuravam fazer suas figuras com os mais nítidos contornos e incluir tanto conhecimento sobre o corpo humano quando coubessem na pintura sem violentar a sua aparência. Ainda eram amantes das linhas firmes e do plano equilibrado. Ainda não se dispunham todos os relances fortuitos da natureza, tais como as viam. A velha fórmula, os tipos de formas humanas que se desenvolveram ao longo dos séculos, continuavam sendo os seus pontos de partida. Só que já não as consideravam tão sagradas como antes em cada detalhe.

A grande revolução da arte grega, a descoberta de formas naturais e do esforço, ocorreu numa época que é, certamente, o mais assombroso período da história humana. É a época em que o povo das cidades gregas começou a contestar as antigas tradições e lendas sobre os deuses, e a investigar sem preconceito a natureza das coisas. É o período em que a ciência, tal como é vista hoje, e a filosofia despertam pela primeira vez no ocidente.

 



Édipo e a Esfinge – análise da obra
 

A imagem traz a personagem Édipo, figura mitológica conhecida como a escolhida para sofrer todos os males de sua linhagem e a Esfinge, ela muito representada em pintura de vaso e baixos-relevos, como um leão alado com uma cabeça de mulher; ou uma mulher com as patas, garras e peitos de um leão, uma cauda de serpente e asas de águia.

Esse encontro mítico-literário ocorreu na obra trágica de Sófocles. A personagem Édipo é filho de Laio, rei de Tebas. O monarca, conhece sua maldição quando sua esposa engravida e este vai ao Oráculo de Delfos saber sobre o futuro da criança. Ele descobre que sua sina é que seu filho tornar-se ia seu assassino e desposaria sua própria mãe. Agindo como qualquer ser humano, tenta escapar da ira dos deuses e após o nascimento de Édipo, Laio manda matá-lo num lugar distante de Tebas.

Com dó da criança, o algoz a deixa com vida próximo de Corinto, reino vizinho de Tebas. Édipo sobreviveu e foi salvo por um pastor que o entregou a Políbio, rei de Corinto.

Édipo foi criado como príncipe e já adulto, descobre a maldição que lhe fora atribuída. Mais uma vez, para fugir à predestinação, foge de Corinto sem saber que seus pais verdadeiros o esperavam em Tebas para cumprirem juntos os seus destinos.

Ainda próximo a Corinto, Édipo encontra um bando de mercadores e seu amo – Laio – pai de Édipo. Sem saberem de suas verdadeiras identidades, travam uma luta e Édipo acaba matando seu próprio pai. Seus seguidores também são mortos, exceto um que consegue fugir muito machucado.

Ainda sem rumo certo, Édipo fica sabendo que a cidade de Tebas havia caído sob uma maldição e que aquele que livrasse a cidade dessa maldição, ganharia o trono e fortuna. Assim que chega a Tebas, livra o reino da Esfinge e seus enigmas e como recompensa: É eleito rei e premiado com a mão da recém-viúva rainha Jocasta; sua mãe.

Após uma consulta ao oráculo de Delfos, os tebanos são alertados sobre alguém que provoca a ira dos deuses: o assassino de Laio que vive na cidade. Édipo decide livrar o reino mais uma vez, descobrindo a identidade do assassino do antigo rei.

Ele só não esperava que essa maldição caísse sobre ele próprio, assim descobre a verdade, a tragédia prenunciada se configura com o suicídio de Jocasta, Édipo cega a si próprio e seus filhos eternamente amaldiçoados.

Houve, na mitologia antiga muitas e diferentes representações da esfinge. O mito de Édipo, no entanto, sobretudo depois de imortalizado pela tragédia Édipo rei, de Sófocles, privilegiou de tal forma uma delas que as demais caíram no esquecimento. A Esfinge é filha de Tifão e Équidna, foi enviada por Hera para punir a cidade de Tebas, a qual havia desrespeitado a deusa do Olimpo.

Criatura monstruosa com corpo de leão, cabeça humana e azas, na representação mais comum, a esfinge, monstro devorador foi um importante tema mitológico nas antigas civilizações egípcias e mesopotâmicas. Na Grécia, literatura e arte se inspiram frequentemente, no mito Édipo e da Esfinge. Esta, segundo a lenda, aterrorizava os habitantes da cidade de Tebas e matava os que não conseguiam resolver o enigma por ela proposto: “Que animal caminha com quatro pés pela manhã, dois ao meio dia e três à tarde, e contrariando a lei geral, é mais fraco quando tem mais pernas?”

Édipo conseguiu decifrar o enigma, dizendo que era o homem: Ele engatinha quando bebê, anda com duas pernas ao longo da vida e precisa de um bastão na velhice. Ao ouvir a resposta, a Esfinge, derrotada, jogou-se num abismo.

Uma das mais antigas representações da figura motológica é a Colossal Esfinge de Gizé no Egito, que data do reinado de Quefrén, faraó da quarta dinastia. A esfinge egípcia tem corpo de leão com as patas dianteiras estendidas, e cabeça humana, coberta com uma manta funerária (nemes). Supõe-se que representa o Deus Hórus, guardião de Templos e Túmulos. Os egípcios esculpiram muitas estátuas da esfinge, cujo rosto lembrava sempre o faraó da época. Algumas esfinges, no entanto, ostentavam cabeças de carneiros e falcões. As imagens ficavam na frente dos templos, em ambos os lados da estrada de acesso (dromos), com função protetora, como no grande templo de Karnak.

Por volta de 1600 a. C. a esfinge feminina alada foi adotada pela civilização grega. Encontram-se os primeiros exemplos de sua utilização em objetos cretenses do final do período molnóico e nas sepulturas de Micenas do fim do período heládico.

A partir de 1200 a.C., as esfinges desapareceram da cultura grega por certa de 400 anos, mas mantiveram-se na Ásia, com aspecto semelhante ao que tinha na idade do bronze. No final do século VIII a.C. a esfinge reapareceu na arte arcaica grega, na qual persistiu até o final do século VI a.C.. A nova esfinge grega era quase sempre feminina, com grandes tranças. Seu corpo se estilizou e as azas adotaram a forma curvada, como a famosa esfinge de Delos. As esfinges converteram-se em motivo frequente para decoração de vasos e peças de marfim e , no final do período arcaico, apareceram como ornamento de templos, sempre com função protetora.

No século V a.C, o mito de Édipo e a Esfinge, representada no alto de uma coluna foi tema comum na decoração. Outras obras do período clássico mostram Édipo em combate com as  Esfinge, expressando assim, fisicamente a disputa intelectual entre as duas figuras míticas. Nada relatam as lendas, porém sobre episódio, o que leva a crer que a arte grega tenha tomado o tema da luta do Homem contra um ser monstruoso de alguma civilização oriental.

A utilização de passagens das obras literárias, embora fosse uma prática comum, nos revela uma característica da época: a figura remonta uma passagem em que o homem supera o mito pelo conhecimento e esse era o principal objetivo dele, o desenvolvimento de sua razão. O início da valorização da razão (logos) ao lado do elemento mágico enviado pelos deuses.

A ironia está no fato de que, mesmo superando a esfinge pelo conhecimento, o homem está à mercê das fatalidades do destino, do qual é incapaz de fugir. O poder que levou Édipo ao trono “o saber”, foi este mesmo que o levara a ruína.

O herói, ao mesmo tempo que é salvador, também é o causador dos grandes males do seu povo. Tal imagem, suscita a própria condição de existência do ser humano e suas responsabilidades diante dos seus atos, controlados por ele mesmo e não por forças divinas. Este conceito difere o homem da concepção existente até então, daí sua importância, não só para a arte, mas para a compreensão de toda a história da humanidade.

 

 

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