quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Poesia em sala de aula




O texto abaixo é parte de uma artigo sobre a trajetória de uma professor que se torna poeta para dar aula sobre poesia visual.


    De Poeta a Professor

Um dos maiores equívocos verificáveis no ensino de poesia é a forma reducionista como a mesma vem sendo tratada, muitas vezes, em sala de aula.
Fala-se em inspiração, escolha de palavras impactantes, rimas, mas a falta de iniciação dessa poética e dos seus verdadeiros significados e técnicas utilizadas causa uma idéia errônea de que toda poesia seja elaborada a partir sempre de um mesmo prisma.
A falta de preparo daquele que se propõe à tarefa de ensiná-la incorre da formação de uma visão reduzida e muitas vezes distorcida sobre poesia, mas o maior problema é que tal abordagem pode tirar do aluno a oportunidade de ter um verdadeiro contato, de poder admirar, gostar, desgostar, emociona-se e refletir sobre as situações que geraram o poema e também como ele se encaixa dentro dessas situações. A falta de uma iniciação significativa tem impedido grande parte das novas gerações de consumir poesia como algo que faça parte da vida, natural e sensível.
Para Pignatari, a poesia “é arte do anti-consumo”, bastante peculiar e contraditória nas artes da palavra. Ao mesmo tempo, estranhamento e admiração. Ao indagarmos o que é aquele estranho e o que é o imprevisto, parece motivar-nos a um confronto de idéias e desse confronto, um movimento. O  simples ato de sairmos da nossa posição acomodada sobre o que acreditamos como certo para si e para o mundo, algo pode ser modificado em nós. E sobre esse aspecto da poesia, Pignatari situa-nos no campo da sensibilidade:

A  poesia  situa-se  no   campo  do  controle  sensível, no  campo  da imprecisão. A questão da poesia é esta: dizer coisas imprecisas de modo preciso. As artes criam modelos para a sensibilidade e para o pensamento analógico. Uma poesia nova, inovadora  e original cria modelos novos para sensibilidade: ajuda a criar uma sensibilidade nova.PIGNATARI – 1981- p.51


A preocupação com a construção de um saber poético – visual deve levar o professor à pesquisa e à elaboração de uma prática educativa, no sentido de desenvolver essa sensibilidade não só para a leitura  de obras, mas também para a produção e reflexão do aluno sobre a arte, sobre sua criação enquanto aprendiz e sobre o mundo em que ele vive.
Para Ana Mae Barbosa (2008), os professores precisam conhecer desde os conceitos fundamentais da linguagem da arte, até os meandros da linguagem artística em que trabalha. Saber sobre sua produção, seus elementos que a constituem, seus códigos, como se dava e como se dá a presença humana, que implica para ela numa “visão multicultural”
“É preciso, ainda, conhecer seu modo específico de percepção e como se estabelece um contato mais sensível.” “Como são construídos os sentidos a partir das leituras, como aprimorar o olhar, o ouvido e o corpo”. BARBOSA p.52.
Dessa forma, a reflexão sobre as atitudes do educador precisa ser sempre revista, as informações reelaboradas, revisitadas em suas teorias, repensadas enquanto matéria viva que se modifica, pois a cada aplicação, os alunos são diferentes, seus repertórios são outros e com isso a prática precisa acompanhar essas mudanças para que o conteúdo estudado seja possível à aprendizagem.

Do ódio aos sabores


Na história, a luta entre os mais variados grupos nos prova que toda configuração que os distinguem e os impelem à batalha é contraditória. Uma vez que todas as regras que os fazem sobrepor-se uns sobre os outros, que toda razão para a renúncia a uma coexistência esfarela-se por entre cascas de pão que alguém produz para um vender e outro se alimentar. Entre uma gestação de um filho, que por muito tempo coube a outra amamentar... entre as paixões e desejos que se agitam e abalam quaisquer pilares à conviência.
Do ódio aos sabores que animam o espírito e que fazem gerar  o inevitável apreço e a dolorosa constatação de que nunca um será igual ao outro, mas o sucesso ou fracasso de um será o do outro.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A Pintura em Vasos - Édipo Rei


A história dos vasos

Os vasos gregos são também conhecidos não só pelo equilíbrio de sua forma, mas também pela harmonia entre o desenho, as cores e o espaço utilizado para a ornamentação. Além de servir para rituais religiosos, esses vasos eram usados para armazenar, entre outras coisas, água, vinho, azeite e mantimentos. Por isso, a sua forma correspondia à função a que eram destinados:

- Ânfora – vasilha em forma de coração, com o gargalo largo ornado com duas asas;
- Hidra – tinha três asas, uma vertical para segurar enquanto corria a água e duas para levantar;
- Cratera – tinha boca muito larga, com o corpo em forma de um sino invertido, servia para misturar água com o vinho (os gregos nunca bebiam vinho puro);
- Kantharo – uma espécie de cálice.

Os gregos do século XII a.C. tinham uma vaga lembrança da desdita de seus antepassados, mais tarde relatada com toques de lenda, em poemas épicos como “A Ilíada” e “A Odisseia”, atribuídos a Homero. Não saberiam precisar o nome daqueles povos vindos do norte a partir do século XV a.C.; primeiro aqueus, depois os eólios e jônios, finalmente os dórios que falavam dialetos diferentes e deram o golpe de misericórdia na agonizante civilização creto-micênica.

A população dispersou-se pelas ilhas e montanhas. Com o declínio do comercio e da economia, desapareceu a vida urbana. Ganhando feições rurais, cada agrupamento familiar ou clã tinha seu chefe responsável pelo cultivo da terra, pelo trabalho coletivo e pela divisão de produtos. Mas a invasão dórica que começou do século XII a.C. também atingiu a arte, empobrecendo os artesões e fechando as escolas profissionais.

Os vasos gregos desse período retomavam uma simplicidade e um primitivismo há muito superados em Creta e Micenas. Impera nas cerâmicas aquele estilo geométrico onde a função utilitária de armazenar líquidos e cereais prevalece sobre qualquer intenção artística. É a cerâmica Dipilon, assim chamada por ter sido encontrada principalmente no cemitério do mesmo nome, próximo a Atenas. Nos vasos, ânforas, pequenas caixas e animais de terracota triunfam o geometrismo. Sobre tons alaranjados da cerâmica, desfilam as mais singulares combinações de figuras geométricas em negro: retas, curvas, polígonos, meandros, pontos e espirais são parte de uma profusa decoração.

Sem limites definidos, as figuras claras e rítmicas se ligam e se integram, obedecendo á faixa horizontal onde se inserem. Há uma harmonia simples e bela no jogo dos círculos que se entrelaçam até formarem pequeninos pontos, bem como nas retas paralelas que compõem os frisos da faixa central, representando, muitas vezes, cenas cotidianas.

Os vasos Dipilon reproduzem os cortejos fúnebres: figuras esguias e estilizadas de cavaleiros segurando frágeis arreios. Os cavalos têm múltiplas patas e os pequenos carros são apenas indicados por rodas frontais e por uma plataforma que sustenta o condutor. As árvores e o sol, os animais e os homens são como traços de caligrafia. A natureza, de tão repetida, transforma-se numa imagem esquematizada. E a geometria da decoração, em faixas separa acompanhada a própria forma do vaso, extremamente simples.

Os artistas gregos ainda procuravam fazer suas figuras com os mais nítidos contornos e incluir tanto conhecimento sobre o corpo humano quando coubessem na pintura sem violentar a sua aparência. Ainda eram amantes das linhas firmes e do plano equilibrado. Ainda não se dispunham todos os relances fortuitos da natureza, tais como as viam. A velha fórmula, os tipos de formas humanas que se desenvolveram ao longo dos séculos, continuavam sendo os seus pontos de partida. Só que já não as consideravam tão sagradas como antes em cada detalhe.

A grande revolução da arte grega, a descoberta de formas naturais e do esforço, ocorreu numa época que é, certamente, o mais assombroso período da história humana. É a época em que o povo das cidades gregas começou a contestar as antigas tradições e lendas sobre os deuses, e a investigar sem preconceito a natureza das coisas. É o período em que a ciência, tal como é vista hoje, e a filosofia despertam pela primeira vez no ocidente.

 



Édipo e a Esfinge – análise da obra
 

A imagem traz a personagem Édipo, figura mitológica conhecida como a escolhida para sofrer todos os males de sua linhagem e a Esfinge, ela muito representada em pintura de vaso e baixos-relevos, como um leão alado com uma cabeça de mulher; ou uma mulher com as patas, garras e peitos de um leão, uma cauda de serpente e asas de águia.

Esse encontro mítico-literário ocorreu na obra trágica de Sófocles. A personagem Édipo é filho de Laio, rei de Tebas. O monarca, conhece sua maldição quando sua esposa engravida e este vai ao Oráculo de Delfos saber sobre o futuro da criança. Ele descobre que sua sina é que seu filho tornar-se ia seu assassino e desposaria sua própria mãe. Agindo como qualquer ser humano, tenta escapar da ira dos deuses e após o nascimento de Édipo, Laio manda matá-lo num lugar distante de Tebas.

Com dó da criança, o algoz a deixa com vida próximo de Corinto, reino vizinho de Tebas. Édipo sobreviveu e foi salvo por um pastor que o entregou a Políbio, rei de Corinto.

Édipo foi criado como príncipe e já adulto, descobre a maldição que lhe fora atribuída. Mais uma vez, para fugir à predestinação, foge de Corinto sem saber que seus pais verdadeiros o esperavam em Tebas para cumprirem juntos os seus destinos.

Ainda próximo a Corinto, Édipo encontra um bando de mercadores e seu amo – Laio – pai de Édipo. Sem saberem de suas verdadeiras identidades, travam uma luta e Édipo acaba matando seu próprio pai. Seus seguidores também são mortos, exceto um que consegue fugir muito machucado.

Ainda sem rumo certo, Édipo fica sabendo que a cidade de Tebas havia caído sob uma maldição e que aquele que livrasse a cidade dessa maldição, ganharia o trono e fortuna. Assim que chega a Tebas, livra o reino da Esfinge e seus enigmas e como recompensa: É eleito rei e premiado com a mão da recém-viúva rainha Jocasta; sua mãe.

Após uma consulta ao oráculo de Delfos, os tebanos são alertados sobre alguém que provoca a ira dos deuses: o assassino de Laio que vive na cidade. Édipo decide livrar o reino mais uma vez, descobrindo a identidade do assassino do antigo rei.

Ele só não esperava que essa maldição caísse sobre ele próprio, assim descobre a verdade, a tragédia prenunciada se configura com o suicídio de Jocasta, Édipo cega a si próprio e seus filhos eternamente amaldiçoados.

Houve, na mitologia antiga muitas e diferentes representações da esfinge. O mito de Édipo, no entanto, sobretudo depois de imortalizado pela tragédia Édipo rei, de Sófocles, privilegiou de tal forma uma delas que as demais caíram no esquecimento. A Esfinge é filha de Tifão e Équidna, foi enviada por Hera para punir a cidade de Tebas, a qual havia desrespeitado a deusa do Olimpo.

Criatura monstruosa com corpo de leão, cabeça humana e azas, na representação mais comum, a esfinge, monstro devorador foi um importante tema mitológico nas antigas civilizações egípcias e mesopotâmicas. Na Grécia, literatura e arte se inspiram frequentemente, no mito Édipo e da Esfinge. Esta, segundo a lenda, aterrorizava os habitantes da cidade de Tebas e matava os que não conseguiam resolver o enigma por ela proposto: “Que animal caminha com quatro pés pela manhã, dois ao meio dia e três à tarde, e contrariando a lei geral, é mais fraco quando tem mais pernas?”

Édipo conseguiu decifrar o enigma, dizendo que era o homem: Ele engatinha quando bebê, anda com duas pernas ao longo da vida e precisa de um bastão na velhice. Ao ouvir a resposta, a Esfinge, derrotada, jogou-se num abismo.

Uma das mais antigas representações da figura motológica é a Colossal Esfinge de Gizé no Egito, que data do reinado de Quefrén, faraó da quarta dinastia. A esfinge egípcia tem corpo de leão com as patas dianteiras estendidas, e cabeça humana, coberta com uma manta funerária (nemes). Supõe-se que representa o Deus Hórus, guardião de Templos e Túmulos. Os egípcios esculpiram muitas estátuas da esfinge, cujo rosto lembrava sempre o faraó da época. Algumas esfinges, no entanto, ostentavam cabeças de carneiros e falcões. As imagens ficavam na frente dos templos, em ambos os lados da estrada de acesso (dromos), com função protetora, como no grande templo de Karnak.

Por volta de 1600 a. C. a esfinge feminina alada foi adotada pela civilização grega. Encontram-se os primeiros exemplos de sua utilização em objetos cretenses do final do período molnóico e nas sepulturas de Micenas do fim do período heládico.

A partir de 1200 a.C., as esfinges desapareceram da cultura grega por certa de 400 anos, mas mantiveram-se na Ásia, com aspecto semelhante ao que tinha na idade do bronze. No final do século VIII a.C. a esfinge reapareceu na arte arcaica grega, na qual persistiu até o final do século VI a.C.. A nova esfinge grega era quase sempre feminina, com grandes tranças. Seu corpo se estilizou e as azas adotaram a forma curvada, como a famosa esfinge de Delos. As esfinges converteram-se em motivo frequente para decoração de vasos e peças de marfim e , no final do período arcaico, apareceram como ornamento de templos, sempre com função protetora.

No século V a.C, o mito de Édipo e a Esfinge, representada no alto de uma coluna foi tema comum na decoração. Outras obras do período clássico mostram Édipo em combate com as  Esfinge, expressando assim, fisicamente a disputa intelectual entre as duas figuras míticas. Nada relatam as lendas, porém sobre episódio, o que leva a crer que a arte grega tenha tomado o tema da luta do Homem contra um ser monstruoso de alguma civilização oriental.

A utilização de passagens das obras literárias, embora fosse uma prática comum, nos revela uma característica da época: a figura remonta uma passagem em que o homem supera o mito pelo conhecimento e esse era o principal objetivo dele, o desenvolvimento de sua razão. O início da valorização da razão (logos) ao lado do elemento mágico enviado pelos deuses.

A ironia está no fato de que, mesmo superando a esfinge pelo conhecimento, o homem está à mercê das fatalidades do destino, do qual é incapaz de fugir. O poder que levou Édipo ao trono “o saber”, foi este mesmo que o levara a ruína.

O herói, ao mesmo tempo que é salvador, também é o causador dos grandes males do seu povo. Tal imagem, suscita a própria condição de existência do ser humano e suas responsabilidades diante dos seus atos, controlados por ele mesmo e não por forças divinas. Este conceito difere o homem da concepção existente até então, daí sua importância, não só para a arte, mas para a compreensão de toda a história da humanidade.

 

 

Endereços Eletrônicos:




 

Análise da obra "O Assinalado" - Cruz e Souza

Este trabalho está situado na área de leitura textual e tem por tema: "O papel das saliências e relevâncias na legibilidade do poema.


O Assinalado
 

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu ’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco…
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

 

Analise do Poema

 


Para analisarmos o poema “O assinalado”, o escritor Cruz e Souza, poeta Simbolista, soneto datado em 1905, trabalharemos o texto enquanto produto, por meio de uma leitura polissêmica e analítica.
Nessa analise, mostraremos o percurso da personagem que é apresentada no primeiro verso do poema “... o louco...”, num momento incomum da vida em relação ao mundo.
Por ser um texto que não se desvenda por si só, procuraremos desvendar o interior de cada signo, em suas várias faces, sentimentos emaranhados e sensações múltiplas que aos poucos mostram-se para o leitor. Apresentaremos uma interpretação que está longe de ser perfeita, mas que foi escolhida nesse momento, para analisar “O Assinalado”.
Diante desse soneto “O Assinalado”, já o titulo deixa – nos  supor  que  alguém  ou  alguma coisa está marcado, sem por enquanto dar – nos evidências mais concretas do que se está falando.
No primeiro quarteto, no primeiro verso, temos a apresentação de uma personagem “Tu és o louco da imortal loucura...”, temos um ser que, segundo o eu-lírico, sofre de um mal incurável, uma loucura que jamais terá fim.
No segundo verso, este mal é enfatizado  pela  palavra  suprema, “... a  loucura  mais suprema...” estaríamos falando então, de uma loucura, que está acima de qualquer cura, algo gradual, isto é, a loucura seria classificada em estágios, é como se a loucura de que estamos falando, fosse de uma categoria superior a todas as demais existentes.
No terceiro verso, temos o elemento terra dado como uma prisão para este louco, uma prisão “negra” dolorida. “... A terra é sempre a tua negra algema...”, o adverbio sempre confirma-nos o aspecto infinito desse cárcere. Mas, como estar preso pela terra, se ela é todo que conhecemos? Então, é um todo que não basta a esse ser que se sente aprisionado dentro do tudo que nós seres humanos conhecemos.
No quarto verso, quando o autor diz “extrema Desventura”, não se sabe ao certo de que desventura “personalizada” pela letra maiúscula está falando, pode estar mencionando tanto sobre a “terra” do verso anterior, como da própria loucura. “... prende-te nela a extrema Desventura...” Mas porque um louco, já que impregnados pela condição da imortal loucura e eterna, teria que ser tão dolorosa, desgraçada e infeliz sua vida? Sendo louco, poderia escolher a personagem que quisesse para viver, sem ter que ser necessariamente infeliz e nessas escolhas, haveria uma infinidade de possibilidades.
Com esse novo dado, comprovamos que na primeira estrofe realmente estamos falando de alguém especial e diferente “alguém marcado”, por uma loucura suprema, dolorida e cheia de infelicidades.
Na segunda estrofe, os dois primeiros versos retomam o que já foi dito antes no primeiro verso “... Mas essa  mesma  algema  de  amargura...”, “- mas  essa  mesma  extrema Desventura...” A expressão “essa mesma” retoma e prepara-nos para algo novo e diferente até então.
No terceiro verso o autor mostra a “alma” do louco no limite insuportável da dor e tristeza, “... faz que tua alma suplicando gema...”. Essa mudança partiu da alma do louco, “... alma suplicando gema...”, por meio de um pedido interno há a manifestação do que anteriormente era apenas introspectivo.
No quarto verso, tudo se modifica, quebrando em  pedaços  e  desabrochando  para  uma nova realidade, cheia de sensibilidade e meiguice “rebente em estrelas de ternura...”. Uma vez externalizado, pode  ser  visto  e  interpretado  pelo  olhar  alheio de formas diferentes.
A segunda estrofe transforma tudo que até então era imutável. Falávamos de um mal sem cura, imortal, extrema Desventura, e agora temos “estrelas de ternura” segundo o eu-lírico, essa  mudança  partiu  da  alma  do  louco, “... alma  suplicando  gema...” por meio de um pedido interno.
Mas que louco é esse que faz súplicas, dado que um louco não te consciência das coisas que ocorrem consigo mesmo? Uma consciência de ser inconsciente? Ou, inconscientemente, estar consciente de tudo o que ocorre dentro de si? Inspiração?
No primeiro verso da terceira estrofe o autor desvenda a personagem do louco “... Tu és o Poeta, o grande  Assinalado...”, sendo  assim  que  sofreu  e  foi  marcado para passar por todas as aprovações de até então, foi o poeta.
No segundo verso, o autor diz que é o poeta quem vai dar vida onde não existe nada, ele irá produzir e do nada poderá criar tudo. O poeta pode tudo em sua poesia, ele não precisa retratar a realidade como numa fotografia, ele terá um estilo próprio para dizer o que, com palavras engajadas gramaticalmente corretas seria possível, pois será com o esdrúxulo, com o estranho que mostrará, segundo sua visão de mundo, o correto das coisas.
Não segue modelos esteticamente padronizados. Talvez, por isso seja considerado louco, aquele que não vê o mundo como as outras pessoas, aquele que consiga recriá-lo de um jeito jamais pensado até mesmo pela ciência.
O elemento “terra” (terceiro verso  da  primeira  estrofe) “... a terra  é  sempre  a  tua negra algema...”, agora  já pode ter  sentido  com mais clareza, haja  vista, são  sempre  sobre os elementos da terra que o poeta fala, são os dados que ele tem á mão para escrever, “negra alma”, o autor pode estar fazendo uma referência ao fato de que, embora a terra seja muito grande, confirmado pelo poeta no primeiro verso da quarta estrofe “... Na Natureza prodigiosa e rica...”, com um material  para se  compor, às  vezes, para  o  poeta “a terra” parece pequena demais para sua transcendência de artista. Ir além da terra, do conceito, do real visível é seu grande desafio.
No segundo verso da quarta estrofe, o autor retoma a questão da composição do poeta, a coragem e muitas vezes o atrevimento  que  tem  de criar expressões como “audácia dos nervos”, “... toda a audácia dos nervos justifica...”, ele dá características à pessoa e coisas que não são inerentes a esses grupos num jogo prosopopeico, causando estranhamento na  maioria  das  vezes, mas  essa  foi  a  forma que o poeta encontrou para  expressar a amplitude das coisas, sem os limites impostos por definições dicionarizadas.
No terceiro verso da quarta estrofe e último do poema, temos a expressão “espasmos imortais”, que poderíamos classificar como uma contração involuntária dos músculos, ou simplesmente inspiração, uma vez que se refere ao fazer do poema. Imortais porque são próprios dos escritores de todas as épocas.
Retomando a questão do sofrimento inicial do poema, poderíamos entendê-lo como a falta de assunto, indecisão ou até mesmo confusão de palavras, que o poeta passa antes de escrever. Enquanto o escritor, no momento da elaboração de sua obra, o artista sofre ao passar por várias ideias, algumas que se fundem, outras que nem de longe combinam-se, e que gostaria que fizessem parte de sua composição. Até encontrar um engajamento para suas ideias, o poeta padece atrás de uma luz, de uma inspiração que ponha fim ao seu sofrimento.
Após a análise do poema “O Assinalado” o que podemos concluir é que a única loucura do poeta é escrever poema. O processo de concepção e realização literária. O sofrimento e desilusões por que passa são lexicais os emaranhado de ideias e estruturas congruentes no momento em que concebe a estética literária.

 

 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Cotas - por Jéssica Lopes

O tema Cotas tem gerado diversas discussões nos mais variados grupos, por isso, resolvi postar esse texto, resultado de uma aula sobre o gênero Manifesto.
Ele é interessante por trazer uma visão do aluno cotista que não tem vergonha de sua posição. Fato que parece raro na mídia, pois até então, apenas os governistas e partidários das minorias "a favor" tinham opinião formada e eram capazes de argumentar com propriedade o seu posicionamento.


Críticas dependem de argumentos construtivos

Nós sabemos o quanto vocês, queridos burgueses, devem estar felizes após as medidas sancionadas por nossa querida presidente Dilma Rousseff nesta quarta feira, dia vinte e nove de setembro de dois mil e doze beneficiando-nos com cinquenta por cento das vagas em universidades federais, pelo menos é isso o que vocês dizem por aí ...

Imaginamos que vocês estão a nos criticar e principalmente a questionar a nossa vã capacidade. Gostaríamos de deixar claro que vocês, burgueses, "NÃO SÃO MELHORES QUE NINGUÉM", e a exemplo do que o professor norte americano David McCullough repetiu inúmeras vezes durante o seu discurso na formatura a seus alunos, vocês também não são especiais, pois após a formatura todos seguiremos nossos caminhos, nenhum será mais importante que o outro, independentemente das suas conquistas realizadas no ensino médio. As medidas aprovadas não dificultarão o ingresso de vocês nas universidades, APENAS garantirão o direito que nos vem sido tirado há anos, por vocês, é claro.
Estamos cansados de ouvir as justificativas de que não teremos capacidade para acompanharmos as matérias, que prejudicaremos o andamento do curso e se é que o concluiremos. Seria importante, antes de tudo ressaltar que os índices de alunos oriundos de escolas públicas que se formam, comparados com os de alunos do ensino particular nas suas devidas proporções são maiores, estes índices provam então a nossa capacidade. É só pesquisar, verifiquem!
Partindo desta ideia, nós futuros cotistas, afirmamos que a lei então criada nos promoverá a possibilidade de ascensão intelectual e financeira SIM, estas que não foram alcançadas por nossos avós e pais. Cansamos de viver marginalizados devido a nossa condição social. Defendemos também a aprovação de novas medidas que possam vir a melhorar a estruturação do ensino de base, para que no futuro não seja necessário enfrentamos críticas e questionamentos sobre a nossa capacidade.
Só assim iniciaremos um processo revolucionário na educação brasileira, formando cidadãos conscientes, e principalmente, cidadãos que reconheçam os direitos de igualdade, independentemente da sua condição financeira e ou racial.

                              
Jéssica Lopes de Almeida
 http://www.facebook.com/jessiicalopes2 ...