segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Língua Portuguesa - uma breve conversa


Quando uma conversa sobre gramática é iniciada fora do âmbito das letras, a tendência das pessoas é desconversar, iniciar outro assunto. De forma geral, o povo raramente se identifica com a norma culta, gostam de inovar, criam novas versões para os nomes de objetos, ritmos que soem mais harmônicos, concordâncias mais fáceis de serem empregadas na comunicação diária.

A visão que se tem, pelos mais variados motivos, é que a gramática é um estatuto imutável, criado por seres superiores que não admitem erros em sua utilização. Na escola, qualquer tipo de variação deve ser banida, bom mesmo é aquele colega que sabe todas as regras do emprego da vírgula ou aquele outro que sabe de cor a conjugação verbos no pretérito mais que perfeito, e quando se torna adulto, toma consciência de que nunca aprendeu português.

É uma pena que nunca tivessem dito a ele, que para formular esse simples pensamento e todos os outros enunciados com os quais ele se comunicou a vida inteira tenha usado a língua portuguesa. Ela não existe em si mesma, mas em função do que as pessoas falam, ouvem, leem e escrevem nas práticas sociais.

A gramática é composta de regras e orientações a cerca do uso das unidades da língua, suas combinações com a finalidade de produzir certos efeitos, em enunciados funcionalmente inteligíveis, contextualmente interpretáveis e adequados aos fins pretendidos na enunciação. (Antunes p.86) Assim, a atitude de tentar segui-la a risca para a manutenção de uma língua única, resulta num uso artificial e não atende às exigências efetivas da comunicação entre os falantes de uma língua.

O ensino, o uso, a instituição do que seja padrão ou não na língua portuguesa do Brasil tem sido a temática de vários especialistas da área, acreditam que uma mudança no ensino da gramática em sala de aula pode modificar até a visão que o povo tem de sua língua, o que a valorizaria e diminuiria a distância do que é ensinado na escola e a língua falada pelo povo.

Muitos escritores que vivem da arte literária também se interessam pelo assunto e até discutem questões gramaticais em seus textos. Ivan Jaf que é um escritor bastante versátil, cujas produções vão desde uma série com História do Brasil e vampiros, até adaptações de clássicos, passando por ficção científica e relacionamentos amorosos.  Em “Um futuro singular”, publicado no livro “Lições de gramática para quem gosta de literatura”, o autor conta, de forma bem humorada, a história de um professor de português que escreve ao diretor da escola onde leciona para pedir ajuda numa guerra contra os erros gramaticais, dentre os quais estaria o erro quase herege da não utilização dos plurais corretamente.

Ele alega ser algo de perseguição do “Grande Pajé” da tribo Tupi. O índio desejaria implantar em sua mente o idioma mais antigo dessa terra Brasil, escondido durante séculos, mas que teria permanecido em nosso solo, germinado e voltado à tona para reclamar seu posto de língua oficial. “...dez real – três cueca – seis limão – os peixe tão fresco...”

Poderíamos até seguir a teoria do narrador e acreditarmos que a não utilização de alguns plurais referir-se-ia a um percurso de retorno ao Tupi e explicar que esse idioma fabricado pelos missionários, fruto de uma mistura das línguas utilizadas pelos índios para que ficasse mais fácil catequizar, um produto dos jesuítas difundido entre as tribos catequizadas. Ele foi se misturando ao português e às línguas faladas pelos milhares de negros que foram trazidos para cá, contabilizando um saldo de cerca de 10 mil verbetes oficialmente inseridos a língua falada no Brasil.

O que nos levaria a verificar o já sabido: que a língua portuguesa possui 70% vocabulário do português brasileiro sobre animais e plantas provêm do Tupi-Guarani, tem também vasta influência no nome das cidades, acidentes geográficos, incorporação de ditados populares, nomes de comidas, moradias, topônimos e antropônimos na gênese da instituição de nosso idioma.

Por outro lado, também sabemos que uma língua é modificada por seus falantes num tempo e num espaço, no sentido de simplificá-la e adequá-la ao melhor uso cotidiano.

Essa última ideia de língua nos remete à difundida pela de gramática funcionalista, em que a língua é vista como um instrumento de interação social, cujo correlato psicológico é a competência comunicativa, isto é, a capacidade de manter a interação por meio da linguagem (CASTILHO, P.64).

No que tange ao funcionamento da língua, seus acréscimos e reduções, o autor da obra “A língua de Eulália” nos coloca que por mais que essas construções sejam consideradas português errado, pobre de recursos e várias outras denominações repletas de preconceitos, Bagno defende esse tipo de recurso denominando-o de econômico e funcional. Segundo o linguista, essas construções possuem uma clara lógica, regras coerentemente obedecidas, e serve de material para a literatura popular. Para ele, um bom exemplo seria a canção “Cuitelinho”, obra que, como outras do repertório folclórico, seu autor é desconhecido, grande parte das pessoas a conhece na voz de Nara Leão.


“Cheguei na bera do porto

Onde as ondas se espáia.,

As garça dá meia volta,

E o Cuitelinho não gosta

Que o botão de rosa caia. (...)”


Seguindo a lógica de um português não-padrão, uma língua que funcione e não seja redundante, as marcas de plural só existiria nos artigos que acompanhariam os nomes. No caso de haver um substantivo e um adjetivo, receberia o (s) a palavra que viesse primeiro para indicar que há mais de um. “fortes homem – homens forte.”

Algumas pessoas podem até pensar que tal mudança de perspectiva deprecie a língua, acreditar que quanto maior o investimento na língua, mais ela será valorizada e que são governos negligentes que aceleram esse processo de modificação, pois se implantassem políticas públicas  eficientes, o povo teria mais orgulho da língua pátria. Quanto maior fosse a valorização, maior ao acesso a riqueza lexical e estrutural de uma língua , menos modificações ela sofreria.

Pensar dessa forma seria reduzir a complexa relação entre língua e falantes nas mais variadas classes sociais e níveis linguísticos, pois se há aqueles que não tiveram acesso, utilizam o português-não-padrão e inovam retirando os (ss) redundantes dos enunciados, também há os que se autodenominam intelectuais e inserem palavras estrangeiras para dar status ao que ele anuncia.

Walcyr Carrasco no texto Bilinguismo, retirado do mesmo livro  da obra de Ivan Jaf, nos mostra dois exemplos bastante interessantes num tipo de verbete. Uma espécie de advertência em relação a algumas expressões que servem como armadilha, por demonstrarem uma falsa sofisticação. As palavras são Cult que em inglês significa culto em português, é a denominação dada aos produtos da cultura popular que possuam um grupo de fãs ávidos. Geralmente, algo Cult continua a ter admiradores e consumidores mesmo após não estar mais em evidência, o outro exemplo é Loft, uma palavra que surgiu nos Estados Unidos, uma espécie de moradia instalada em antigos galpões industriais, sempre enormes e sem paredes divisórias veio para o Brasil e a nossa quitinete de luxo, pelo tamanho, perdeu sua utilidade, quem é chique fala e mora num Loft.

Da mesma forma que quem retira (s), os bilinguistas também modificam a língua e não é por isso que empobrece seu léxico. Pelo contrário, o falante passa a ter um repertório maior e bem atual para se comunicar.

Conhecer uma língua significa saber se comunicar dentro das várias relações que se estabelecem dentro da sociedade. “A linguagem é, ao mesmo tempo o principal produto da cultura, e é o principal instrumento para sua transmissão”. (Soares p.16) A supressão dos plurais demonstra a necessidade da utilização dos mesmos em determinados grupos e em determinadas situações. Isto é, nula. Esses grupos não deixam de se comunicar, não deixam de transmitir sua cultura e suas opiniões sobre o que acontece ao seu redor.

Não se trata de inventar uma forma própria de se comunicar, um novo idioma, todos os falantes seguem regras. Cada elemento da língua possui em maior ou menor grau seu lugar dentro do enunciado. Essas regras ficam claras quando se aprende a falar essa língua.

Dessa forma, podemos dizer que é a estrutura social que determina o comportamento linguístico, mas a qualidade, a eficiência do ato de enunciação e recepção só são ineficazes quando o efeito produzido não é o pretendido pelo emissor, quando a proposta de enunciação imaginada não se efetiva no ato da fala.

Defender a forma espontânea dos falantes de uma língua se expressarem de forma alguma retrata uma desvalorização da mesma,é nosso alimento num restaurante “Self Service”e  com  pratos exemplares de variações de Norte a Sul de Pindorama, com sabores do Ocidente ao Oriente e há quem misture quibe, tempurá num prato de feijoada sem a menor cerimônia. Alimenta-se à moda Oswald de Andrade em seus rituais antropofágicos, pois o que importa para ele, assim como para qualquer falante é o sabor do alimento, é a eficiência cumprida pelo papel do alimento, uma necessidade de – o ato de se comunicar.


BIBLIOGRAFIA

BAGNO, Marcos. A língua de Eulália : novela sociolingüística 15. ed.:São Paulo: Contexto, 2006.

CASTILHO, Ataliba T. de. Nova Gramática do Português Brasileiro. São Paulo: Contexto, 2010.

ANTUNES, Irandé. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho. São Paulo: Parábola, 2007.

SOARES, Magda. Linguagem e escola - uma perspectiva social. 17º edição. São Paulo: Ed. Ática, 2001.

CAMPOS, Carmen Lucia; SILVA, Nílson Joaquim da. Lições de Gramática para quem gosta de Literatura.São Paulo:Ed. Panda Books,



   

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