Leitura do texto: “Lutar com palavras: Coesão e Coerência”
Autora: Irandé Antunes
É interessante perceber que
quando o assunto em pauta é “a Língua”, por mais que se esteja numa situação
informal, as pessoas, de uma forma geral, olham para o lado, num gesto como se
estivesse perguntando a esse interlocutor tão inconveniente: “Como assim –
língua? Do que está falando?”. Claro que esse comportamento refere-se a uma
fuga para não falar sobre o assunto.
Se
essa mesma situação ocorre em uma sala de professores, o olhar de busca é mais
especificamente na direção de onde se encontra o professor de língua
portuguesa, pois o senso comum acostumou-se a dizer que os problemas da língua
cabem aos professores de língua portuguesa resolver, como se só ele falasse português.
Indo um pouco além, caso seja necessário, por algum motivo que alguém precise
falar sobre a língua, que caiba também aos mesmos, pois seria difícil que
outros se atrevessem a tal ato intimidador.
Ora, tudo tem origem na
linguagem, todo o conhecimento que temos é traduzido pela língua, todos os
nossos pensamentos são concretizados verbalmente pela língua, então, como cabe
apenas aos professores de língua portuguesa falar sobre a língua?
A
questão é que grande parte das pessoas, ao longo de sua formação, são treinadas
para não errar, são acostumadas a ver a língua portuguesa como uma das línguas
mais difíceis de aprender. Já tive na escola, quando era mais jovenzinha,
professores de várias matérias como: história, física que diziam não ser
especialistas na língua portuguesa, “afinal ela possui tantas regras que nem os
gramáticos dão conta”, dessa forma, eximiam-se de problemas com os erros de
concordância, regência, ortografia que cometiam oralmente e muitas vezes na
escrita, na lousa.
O maior problema que percebo aí
não é o fato de eles não saberem a estrutura gramatical da língua, nem a pronúncia
correta de várias palavras, mas a forma que perpetuavam a ideia de uma espécie
de normatização da ignorância, esse era e imagino que ainda seja o maior problema
observado ao longo de minha formação e hoje com colegas de trabalho.
Na leitura de parte da obra “Lutar com
palavras: coesão e coerência”, dividida em 9 capítulos acerca coesão e
coerência, com o último capítulo destinado a uma reflexão mais global sobre a
importância da língua não só para os estudantes da área, mas como um produto
cultural, histórico de sua nação, a linguista Irandé Antunes aponta, logo no
início, para um dos motivos pelos quais tem sido tão complicada relação das
pessoas com a língua.
Quando pequenos e durante sua
formação, os alunos são treinados para formar frases soltas,
descontextualizadas. “A experiência
cotidiana da criança como falante de uma língua não é a de formar frases...
seria até natural que estranhasse esse tipo de solicitação na escola.”
O ato de estranhamento por até ocorrer, mas ele
acaba incorporando esse tipo de exercício como uma regra escolar, algo que se
deve seguir, mesmo que não o compreenda muito bem.
Em longo prazo, esses exercícios “da
não-linguagem” fragmentam e deturpam o modo do estudante ver a língua, acabando
por absorver e ratificar a ideia de que ela é algo ininteligível, abstrato.
Quanto a parte sobre coesão, deter-me-ei
apenas um simples resumo do que fora exposto pela autora Irandé Antunes.
A
função da coesão é criar, estabelecer e sinalizar os laços que deixam os vários
segmentos do texto ligados, articulados e encadeados. A coesão se constrói
na elaboração do texto, conforme ele vai sendo feito e para que tenha sentido,
as palavras devem estar interligadas; os períodos, os parágrafos devem estar
encadeados. A continuidade semântica expressa-se pelas relações de reiteração,
associação e conexão.
Reiteração
refere-se aos processos de repetição por meio de (paráfrases, paralelismo e
repetição propriamente dita do mesmo vocábulo);
a substituição realiza-se por meio das (retomadas de pronomes ou por
advérbios).
Associação demanda uma seleção de palavras
semanticamente próximas por (antônimos ou por diferentes modos de relações de
parte/todo).
Conexão é um estabelecimento de relações
sintático-semânticas entre termos, orações, períodos, parágrafos e blocos supraparágrafos. A coesão é feita
por proposições, conjunções, advérbios e respectivas locuções.
Já a coerência, de natureza mais complexa, por
envolver não só o texto superfície, não só o texto num contexto, mas todos os
elementos de produção e na circulação deste, envolvi-me um pouco mais e por
isso vou expor sucintamente o que apreendi do capítulo.
A
coerência se constrói pela organização realizada conscientemente para um fim
enunciativo. Embora suponha algumas determinações linguísticas, o grau de
influência da gramática sobre o texto é mediado pela intenção do enunciador
para criar um determinado efeito.
As
escolhas lexicais e o estilo do texto são determinados pelo conhecimento que o
emissor tem não só da língua, mas também do interlocutor, do contexto e das
condições extralinguísticas que influenciarão o sentido do texto. É por isso
que não se pode determinar um modelo de coerência específico, único; cada texto
é único, por isso sua organização gramatical e os efeitos que se deseja
construir dentro do texto para que ele tenha vida e faça parte do organismo
social.
Nenhum comentário:
Postar um comentário