segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Análise da obra "O Assinalado" - Cruz e Souza

Este trabalho está situado na área de leitura textual e tem por tema: "O papel das saliências e relevâncias na legibilidade do poema.


O Assinalado
 

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu ’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco…
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

 

Analise do Poema

 


Para analisarmos o poema “O assinalado”, o escritor Cruz e Souza, poeta Simbolista, soneto datado em 1905, trabalharemos o texto enquanto produto, por meio de uma leitura polissêmica e analítica.
Nessa analise, mostraremos o percurso da personagem que é apresentada no primeiro verso do poema “... o louco...”, num momento incomum da vida em relação ao mundo.
Por ser um texto que não se desvenda por si só, procuraremos desvendar o interior de cada signo, em suas várias faces, sentimentos emaranhados e sensações múltiplas que aos poucos mostram-se para o leitor. Apresentaremos uma interpretação que está longe de ser perfeita, mas que foi escolhida nesse momento, para analisar “O Assinalado”.
Diante desse soneto “O Assinalado”, já o titulo deixa – nos  supor  que  alguém  ou  alguma coisa está marcado, sem por enquanto dar – nos evidências mais concretas do que se está falando.
No primeiro quarteto, no primeiro verso, temos a apresentação de uma personagem “Tu és o louco da imortal loucura...”, temos um ser que, segundo o eu-lírico, sofre de um mal incurável, uma loucura que jamais terá fim.
No segundo verso, este mal é enfatizado  pela  palavra  suprema, “... a  loucura  mais suprema...” estaríamos falando então, de uma loucura, que está acima de qualquer cura, algo gradual, isto é, a loucura seria classificada em estágios, é como se a loucura de que estamos falando, fosse de uma categoria superior a todas as demais existentes.
No terceiro verso, temos o elemento terra dado como uma prisão para este louco, uma prisão “negra” dolorida. “... A terra é sempre a tua negra algema...”, o adverbio sempre confirma-nos o aspecto infinito desse cárcere. Mas, como estar preso pela terra, se ela é todo que conhecemos? Então, é um todo que não basta a esse ser que se sente aprisionado dentro do tudo que nós seres humanos conhecemos.
No quarto verso, quando o autor diz “extrema Desventura”, não se sabe ao certo de que desventura “personalizada” pela letra maiúscula está falando, pode estar mencionando tanto sobre a “terra” do verso anterior, como da própria loucura. “... prende-te nela a extrema Desventura...” Mas porque um louco, já que impregnados pela condição da imortal loucura e eterna, teria que ser tão dolorosa, desgraçada e infeliz sua vida? Sendo louco, poderia escolher a personagem que quisesse para viver, sem ter que ser necessariamente infeliz e nessas escolhas, haveria uma infinidade de possibilidades.
Com esse novo dado, comprovamos que na primeira estrofe realmente estamos falando de alguém especial e diferente “alguém marcado”, por uma loucura suprema, dolorida e cheia de infelicidades.
Na segunda estrofe, os dois primeiros versos retomam o que já foi dito antes no primeiro verso “... Mas essa  mesma  algema  de  amargura...”, “- mas  essa  mesma  extrema Desventura...” A expressão “essa mesma” retoma e prepara-nos para algo novo e diferente até então.
No terceiro verso o autor mostra a “alma” do louco no limite insuportável da dor e tristeza, “... faz que tua alma suplicando gema...”. Essa mudança partiu da alma do louco, “... alma suplicando gema...”, por meio de um pedido interno há a manifestação do que anteriormente era apenas introspectivo.
No quarto verso, tudo se modifica, quebrando em  pedaços  e  desabrochando  para  uma nova realidade, cheia de sensibilidade e meiguice “rebente em estrelas de ternura...”. Uma vez externalizado, pode  ser  visto  e  interpretado  pelo  olhar  alheio de formas diferentes.
A segunda estrofe transforma tudo que até então era imutável. Falávamos de um mal sem cura, imortal, extrema Desventura, e agora temos “estrelas de ternura” segundo o eu-lírico, essa  mudança  partiu  da  alma  do  louco, “... alma  suplicando  gema...” por meio de um pedido interno.
Mas que louco é esse que faz súplicas, dado que um louco não te consciência das coisas que ocorrem consigo mesmo? Uma consciência de ser inconsciente? Ou, inconscientemente, estar consciente de tudo o que ocorre dentro de si? Inspiração?
No primeiro verso da terceira estrofe o autor desvenda a personagem do louco “... Tu és o Poeta, o grande  Assinalado...”, sendo  assim  que  sofreu  e  foi  marcado para passar por todas as aprovações de até então, foi o poeta.
No segundo verso, o autor diz que é o poeta quem vai dar vida onde não existe nada, ele irá produzir e do nada poderá criar tudo. O poeta pode tudo em sua poesia, ele não precisa retratar a realidade como numa fotografia, ele terá um estilo próprio para dizer o que, com palavras engajadas gramaticalmente corretas seria possível, pois será com o esdrúxulo, com o estranho que mostrará, segundo sua visão de mundo, o correto das coisas.
Não segue modelos esteticamente padronizados. Talvez, por isso seja considerado louco, aquele que não vê o mundo como as outras pessoas, aquele que consiga recriá-lo de um jeito jamais pensado até mesmo pela ciência.
O elemento “terra” (terceiro verso  da  primeira  estrofe) “... a terra  é  sempre  a  tua negra algema...”, agora  já pode ter  sentido  com mais clareza, haja  vista, são  sempre  sobre os elementos da terra que o poeta fala, são os dados que ele tem á mão para escrever, “negra alma”, o autor pode estar fazendo uma referência ao fato de que, embora a terra seja muito grande, confirmado pelo poeta no primeiro verso da quarta estrofe “... Na Natureza prodigiosa e rica...”, com um material  para se  compor, às  vezes, para  o  poeta “a terra” parece pequena demais para sua transcendência de artista. Ir além da terra, do conceito, do real visível é seu grande desafio.
No segundo verso da quarta estrofe, o autor retoma a questão da composição do poeta, a coragem e muitas vezes o atrevimento  que  tem  de criar expressões como “audácia dos nervos”, “... toda a audácia dos nervos justifica...”, ele dá características à pessoa e coisas que não são inerentes a esses grupos num jogo prosopopeico, causando estranhamento na  maioria  das  vezes, mas  essa  foi  a  forma que o poeta encontrou para  expressar a amplitude das coisas, sem os limites impostos por definições dicionarizadas.
No terceiro verso da quarta estrofe e último do poema, temos a expressão “espasmos imortais”, que poderíamos classificar como uma contração involuntária dos músculos, ou simplesmente inspiração, uma vez que se refere ao fazer do poema. Imortais porque são próprios dos escritores de todas as épocas.
Retomando a questão do sofrimento inicial do poema, poderíamos entendê-lo como a falta de assunto, indecisão ou até mesmo confusão de palavras, que o poeta passa antes de escrever. Enquanto o escritor, no momento da elaboração de sua obra, o artista sofre ao passar por várias ideias, algumas que se fundem, outras que nem de longe combinam-se, e que gostaria que fizessem parte de sua composição. Até encontrar um engajamento para suas ideias, o poeta padece atrás de uma luz, de uma inspiração que ponha fim ao seu sofrimento.
Após a análise do poema “O Assinalado” o que podemos concluir é que a única loucura do poeta é escrever poema. O processo de concepção e realização literária. O sofrimento e desilusões por que passa são lexicais os emaranhado de ideias e estruturas congruentes no momento em que concebe a estética literária.

 

 

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