O
Assinalado
Tu és o louco da imortal
loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de
amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu ’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu ’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande
Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco…
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco…
Na Natureza prodigiosa e
rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
Analise do Poema
Para analisarmos o poema “O
assinalado”, o escritor Cruz e Souza, poeta Simbolista, soneto datado em
1905, trabalharemos o texto enquanto produto, por meio de uma leitura
polissêmica e analítica.
Nessa analise, mostraremos o
percurso da personagem que é apresentada no primeiro verso do poema “... o
louco...”, num momento incomum da vida em relação ao mundo.
Por ser um texto que não se
desvenda por si só, procuraremos desvendar o interior de cada signo, em suas várias
faces, sentimentos emaranhados e sensações múltiplas que aos poucos mostram-se
para o leitor. Apresentaremos uma interpretação que está longe de ser perfeita,
mas que foi escolhida nesse momento, para analisar “O Assinalado”.
Diante desse soneto “O
Assinalado”, já o titulo deixa – nos supor que alguém ou alguma coisa está
marcado, sem por enquanto dar – nos evidências mais concretas do que se está
falando.
No primeiro quarteto, no
primeiro verso, temos a apresentação de uma personagem “Tu és o louco da
imortal loucura...”, temos um ser que, segundo o eu-lírico, sofre de um mal
incurável, uma loucura que jamais terá fim.
No segundo verso, este mal é
enfatizado pela palavra suprema, “... a loucura mais suprema...”
estaríamos falando então, de uma loucura, que está acima de qualquer cura, algo
gradual, isto é, a loucura seria classificada em estágios, é como se a loucura de
que estamos falando, fosse de uma categoria superior a todas as demais
existentes.
No terceiro verso, temos o
elemento terra dado como uma prisão para este louco, uma prisão “negra”
dolorida. “... A terra é sempre a tua negra algema...”, o adverbio sempre
confirma-nos o aspecto infinito desse cárcere. Mas, como estar preso pela
terra, se ela é todo que conhecemos? Então, é um todo que não basta a esse ser
que se sente aprisionado dentro do tudo que nós seres humanos conhecemos.
No quarto verso, quando o
autor diz “extrema Desventura”, não se sabe ao certo de que desventura
“personalizada” pela letra maiúscula está falando, pode estar mencionando tanto
sobre a “terra” do verso anterior, como da própria loucura. “... prende-te nela
a extrema Desventura...” Mas porque um louco, já que impregnados pela condição
da imortal loucura e eterna, teria que ser tão dolorosa, desgraçada e infeliz
sua vida? Sendo louco, poderia
escolher a personagem que quisesse para viver, sem ter que ser necessariamente
infeliz e nessas escolhas, haveria uma infinidade de possibilidades.
Com esse novo dado,
comprovamos que na primeira estrofe realmente estamos falando de alguém
especial e diferente “alguém marcado”, por uma loucura suprema, dolorida e
cheia de infelicidades.
Na segunda estrofe, os dois
primeiros versos retomam o que já foi dito antes no primeiro verso “... Mas
essa mesma algema de amargura...”, “- mas essa mesma extrema Desventura...” A
expressão “essa mesma” retoma e prepara-nos para algo novo e diferente até
então.
No terceiro verso o autor
mostra a “alma” do louco no limite insuportável da dor e tristeza, “... faz que
tua alma suplicando gema...”. Essa mudança partiu da alma do louco, “... alma
suplicando gema...”, por meio de um pedido interno há a manifestação do que
anteriormente era apenas introspectivo.
No quarto verso, tudo se
modifica, quebrando em pedaços e desabrochando para uma nova realidade, cheia
de sensibilidade e meiguice “rebente em estrelas de ternura...”. Uma vez
externalizado, pode ser visto e interpretado pelo olhar alheio de formas
diferentes.
A segunda estrofe transforma
tudo que até então era imutável. Falávamos de um mal sem cura, imortal, extrema
Desventura, e agora temos “estrelas de ternura” segundo o eu-lírico, essa
mudança partiu da alma do louco, “... alma suplicando gema...” por meio de um
pedido interno.
Mas que louco é esse que faz
súplicas, dado que um louco não te consciência das coisas que ocorrem consigo
mesmo? Uma consciência de ser inconsciente? Ou, inconscientemente, estar
consciente de tudo o que ocorre dentro de si? Inspiração?
No primeiro verso da
terceira estrofe o autor desvenda a personagem do louco “... Tu és o Poeta, o
grande Assinalado...”, sendo assim que sofreu e foi marcado para passar por
todas as aprovações de até então, foi o poeta.
No segundo verso, o autor
diz que é o poeta quem vai dar vida onde não existe nada, ele irá produzir e do
nada poderá criar tudo. O poeta pode tudo em sua poesia, ele não precisa
retratar a realidade como numa fotografia, ele terá um estilo próprio para
dizer o que, com palavras engajadas gramaticalmente corretas seria possível,
pois será com o esdrúxulo, com o estranho que mostrará, segundo sua visão de
mundo, o correto das coisas.
Não segue modelos
esteticamente padronizados. Talvez, por isso seja considerado louco, aquele que
não vê o mundo como as outras pessoas, aquele que consiga recriá-lo de um jeito
jamais pensado até mesmo pela ciência.
O elemento “terra” (terceiro
verso da primeira estrofe) “... a terra é sempre a tua negra algema...”, agora já
pode ter sentido com mais clareza, haja vista, são sempre sobre os elementos da
terra que o poeta fala, são os dados que ele tem á mão para escrever, “negra
alma”, o autor pode estar fazendo uma referência ao fato de que, embora a terra
seja muito grande, confirmado pelo poeta no primeiro verso da quarta estrofe “...
Na Natureza prodigiosa e rica...”, com um material para se compor, às vezes,
para o poeta “a terra” parece pequena demais para sua transcendência de
artista. Ir além da terra, do conceito, do real visível é seu grande desafio.
No segundo verso da quarta
estrofe, o autor retoma a questão da composição do poeta, a coragem e muitas
vezes o atrevimento que tem de criar expressões como “audácia dos nervos”, “...
toda a audácia dos nervos justifica...”, ele dá características à pessoa e
coisas que não são inerentes a esses grupos num jogo prosopopeico, causando
estranhamento na maioria das vezes, mas essa foi a forma que o poeta encontrou
para expressar a amplitude das coisas, sem os limites impostos por definições
dicionarizadas.
No terceiro verso da quarta
estrofe e último do poema, temos a expressão “espasmos imortais”, que
poderíamos classificar como uma contração involuntária dos músculos, ou
simplesmente inspiração, uma vez que se refere ao fazer do poema. Imortais
porque são próprios dos escritores de todas as épocas.
Retomando a questão do
sofrimento inicial do poema, poderíamos entendê-lo como a falta de assunto,
indecisão ou até mesmo confusão de palavras, que o poeta passa antes de
escrever. Enquanto o escritor, no
momento da elaboração de sua obra, o artista sofre ao passar por várias ideias,
algumas que se fundem, outras que nem de longe combinam-se, e que gostaria que
fizessem parte de sua composição. Até encontrar um engajamento para suas
ideias, o poeta padece atrás de uma luz, de uma inspiração que ponha fim ao seu
sofrimento.
Após a análise do poema “O
Assinalado” o que podemos concluir é que a única loucura do poeta é escrever
poema. O processo de concepção e realização literária. O sofrimento e
desilusões por que passa são lexicais os emaranhado de ideias e estruturas
congruentes no momento em que concebe a estética literária.
Muito bom!
ResponderExcluirQuem é O ASSINALADO a que se refere o eu lirico?
ResponderExcluiro mundo, pois esse algema nossa alma e nos impede de voar.
ExcluirConsegui compreender sua análise,obrigado
ResponderExcluirEm que livro eu encontro esse poema?
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